Qual é a Bíblia original? Católica ou protestante?

A questão sobre qual seria a Bíblia original, se católica ou protestante, baseia-se em mal-entendido sobre a história da formação do cânon bíblico. A Bíblia original não é católica nem protestante, mas consiste nos textos sagrados escritos em hebraico, aramaico e grego por profetas e apóstolos inspirados por Deus ao longo de aproximadamente mil e quinhentos anos. A distinção entre versões católica e protestante surgiu muito tempo depois, durante a Reforma do século dezesseis, e gira principalmente em torno da inclusão ou exclusão dos chamados livros apócrifos ou deuterocanônicos no Antigo Testamento.

O cânon hebraico do Antigo Testamento, usado pelos judeus palestinos na época de Jesus, continha trinta e nove livros, os mesmos que encontramos nas Bíblias protestantes hoje. Esses livros foram escritos em hebraico e aramaico, reconhecidos como inspirados pela comunidade judaica, preservados meticulosamente através dos séculos e aceitos por Jesus e os apóstolos como Escrituras autoritativas. Quando Jesus falava sobre “a Lei, os Profetas e os Salmos” em Lucas 24:44, estava se referindo às três divisões do cânon hebraico: Torá, Neviim e Ketuvim. Os evangelhos registram Jesus citando extensamente essas Escrituras, mas nunca citando os livros apócrifos, embora existissem em Seu tempo. Os apóstolos, em todo o Novo Testamento, fazem centenas de citações ou alusões ao Antigo Testamento, mas nenhuma citação direta dos apócrifos como Escritura inspirada.

Porém, existia também a Septuaginta, tradução grega do Antigo Testamento feita em Alexandria, Egito, entre os séculos terceiro e segundo antes de Cristo para servir aos judeus da diáspora que falavam grego mas não hebraico. Essa tradução incluía não apenas os trinta e nove livros do cânon hebraico, mas também livros adicionais escritos durante o período intertestamentário, entre Malaquias e Mateus, aproximadamente entre 400 antes de Cristo e o nascimento de Jesus. Esses livros adicionais incluem Tobias, Judite, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico, Baruque, primeiro e segundo Macabeus, e adições a Ester e Daniel. Esses livros foram escritos principalmente em grego, alguns possivelmente em hebraico ou aramaico mas cujos originais se perderam, e refletem o pensamento judaico durante o período entre os testamentos.

A igreja cristã primitiva, espalhando-se rapidamente pelo mundo de fala grega, usou naturalmente a Septuaginta como seu Antigo Testamento. Isso significava que os livros apócrifos circulavam junto com os canônicos, embora sem necessariamente ter o mesmo status de autoridade. Os pais da igreja primitiva tinham opiniões variadas sobre esses livros. Alguns, como Orígenes, Atanásio, Cirilo de Jerusalém e Jerônimo, distinguiam claramente entre os livros canônicos do cânon hebraico e os livros eclesiásticos ou deuterocanônicos que eram úteis para edificação mas não fundamentais para doutrina. Jerônimo, tradutor da Vulgata Latina no século quarto, inicialmente resistiu a incluir os apócrifos, chamando-os explicitamente de não-canônicos, mas eventualmente os incluiu em sua tradução com notas indicando seu status inferior. Outros pais da igreja, especialmente no Ocidente latino, usavam esses livros mais livremente, embora mesmo assim reconhecendo distinção entre eles e os livros protocanônicos.

O Concílio de Trento em 1546, resposta católica à Reforma Protestante, oficialmente declarou os apócrifos como canônicos e pronunciou anátema sobre quem não os aceitasse. Essa foi decisão controversa motivada em parte por polêmica anti-protestante, pois Lutero e outros reformadores haviam rejeitado esses livros baseando-se no cânon hebraico e nos critérios de canonicidade estabelecidos pela igreja primitiva. Os reformadores argumentaram que deveriam retornar ao cânon que Jesus e os apóstolos usaram, que era o cânon hebraico de trinta e nove livros. Eles apontaram que os apócrifos contêm erros históricos, ensinam doutrinas que contradizem as Escrituras canônicas, como orações pelos mortos e justificação por obras, e nunca reivindicam inspiração profética como os livros canônicos fazem.

Há razões teológicas e históricas sólidas para preferir o cânon protestante de trinta e nove livros do Antigo Testamento. Primeiro, é o cânon que os judeus, a quem foram confiados os oráculos de Deus conforme Romanos 3:2, reconheceram como inspirado. Segundo, é o cânon que Jesus e os apóstolos evidentemente usaram e reconheceram como autoritativo. Terceiro, os apócrifos contêm ensinamentos problemáticos como purgatório, orações pelos mortos, salvação por esmolas e justificação por obras que contradizem o ensino claro da Escritura canônica sobre salvação pela graça mediante a fé. Quarto, os próprios livros apócrifos às vezes admitem não serem proféticos, como quando primeiro Macabeus lamenta a ausência de profetas em Israel. Quinto, nenhum escritor do Novo Testamento cita diretamente os apócrifos como Escritura, embora haja centenas de citações do Antigo Testamento canônico.

É importante notar que rejeitar os apócrifos como canônicos não significa considerá-los sem valor histórico ou edificante. Eles fornecem informações valiosas sobre o período intertestamentário, o desenvolvimento do pensamento judaico, as revoltas macabeias e o contexto no qual Jesus nasceu. Lutero os incluiu em sua tradução alemã numa seção separada entre os testamentos, com nota explicando que eram “livros que não se igualam às Sagradas Escrituras e ainda assim são úteis e bons para ler”. Muitas Bíblias protestantes históricas incluíram os apócrifos dessa maneira, reconhecendo seu valor histórico sem aceitar sua inspiração canônica.

A questão do cânon não deveria ser decidida por tradição eclesiástica posterior, mas pelo que Jesus e os apóstolos reconheceram como Escritura e pelos critérios de canonicidade estabelecidos desde o início: autoria profética ou apostólica, aceitação pela comunidade do povo de Deus na época da escrita, coerência com revelação prévia e evidência de inspiração divina. Pelos esses critérios, os trinta e nove livros do Antigo Testamento nas Bíblias protestantes representam o cânon original reconhecido por Jesus, usado pelos apóstolos e preservado pela igreja primitiva. A Bíblia original não é católica nem protestante, mas a Palavra de Deus inspirada, escrita em hebraico, aramaico e grego, preservada através dos séculos e disponível hoje para todos que desejam conhecer a verdade revelada por Deus para salvação e santificação de Seu povo. A divisão entre cânones católico e protestante é questão histórica e teológica que cada pessoa deve examinar à luz da evidência bíblica, histórica e do testemunho do Espírito Santo, voltando sempre à pergunta fundamental: qual coleção de livros Jesus e os apóstolos reconheceram como Palavra de Deus autoritativa?