A questão de como sabemos que a Bíblia que possuímos hoje transmite fielmente o texto original é crucial para confiar em sua mensagem. Os manuscritos originais, chamados autógrafos, escritos pela própria mão de Moisés, Davi, Isaías, Paulo ou João, não existem mais. Papiro e pergaminho, materiais usados na antiguidade, são perecíveis e se deterioram com tempo, especialmente no clima do Oriente Médio. Além disso, os próprios manuscritos originais foram intensamente usados, copiados e recopiados até que simplesmente se desgastaram e desintegraram.
O que temos hoje são milhares de cópias manuscritas antigas que foram cuidadosamente preservadas através dos séculos. Para o Antigo Testamento, os Manuscritos do Mar Morto descobertos entre 1947 e 1956 nas cavernas de Qumran incluem cópias de quase todos os livros do Antigo Testamento que datam entre 250 antes de Cristo e 68 depois de Cristo.
Quando estudiosos compararam esses manuscritos milenar com o texto hebraico medieval chamado texto massorético que vínhamos usando, ficaram impressionados com a precisão extraordinária da transmissão textual através de mais de mil anos de cópias manuscritas.
Para o Novo Testamento, a situação é ainda mais favorável em termos de evidência manuscrita. Existem mais de cinco mil e oitocentos manuscritos gregos do Novo Testamento, além de aproximadamente dez mil manuscritos da Vulgata Latina e milhares de manuscritos em outras línguas antigas como siríaco, copta, armênio, georgiano e etíope. Alguns desses manuscritos datam do segundo e terceiro século, apenas algumas décadas após a escrita dos originais. O papiro mais antigo do Novo Testamento, conhecido como Papiro 52 ou fragmento de João Rylands, contém porção de João 18 e data de aproximadamente 125 depois de Cristo, apenas trinta anos após a composição do evangelho.
O intervalo entre os autógrafos e nossas cópias mais antigas do Novo Testamento é muito menor que para qualquer outra obra da antiguidade. Por comparação, das obras de Platão temos apenas sete manuscritos, o mais antigo copiado mil e duzentos anos após o original. De Aristóteles, apenas cinco manuscritos, com intervalo de mil e quatrocentos anos. Das Guerras Gálicas de Júlio César, temos nove ou dez boas cópias, a mais antiga mil anos posterior ao original. Dos escritos do historiador romano Tácito, temos aproximadamente vinte manuscritos, todos copiados mais de mil anos após ele escrever.
Em contraste, temos milhares de manuscritos do Novo Testamento com intervalo mínimo entre original e cópias. Essa abundância de testemunhas textuais permite que estudiosos de crítica textual comparem manuscritos entre si, identifiquem variações, e reconstruam o texto original com precisão notável. As variações entre manuscritos existem, mas a vasta maioria trata de questões menores como ortografia, ordem de palavras ou sinônimos que não afetam o significado. Nenhuma doutrina fundamental do cristianismo depende de passagem textualmente duvidosa.
Os métodos rigorosos de cópia empregados pelos escribas judeus, especialmente os massoretas entre os séculos sexto e décimo depois de Cristo, garantiram precisão extraordinária na transmissão do Antigo Testamento. Esses escribas não simplesmente copiavam o texto, mas seguiam procedimentos meticulosos que beiravam o obsessivo. Cada palavra, cada letra, cada acento era cuidadosamente contado. Eles sabiam quantas vezes cada letra do alfabeto hebraico aparecia em cada livro, qual era a letra central de cada livro e até qual era a palavra central. Se uma cópia apresentasse qualquer desvio nas contagens, era destruída e o trabalho recomeçava do zero.
Os massoretas não podiam copiar de memória nem mesmo uma única palavra, mas deviam olhar para o texto original antes de escrever cada palavra. Tinham que verificar cada coluna antes de prosseguir e revisar todo o manuscrito dentro de trinta dias após completá-lo. Se encontrassem três erros em qualquer folha, a folha toda era destruída. Se encontrassem um erro em uma página, apenas aquela página era destruída e refeita. Esse rigor quase fanático explica por que o texto hebraico foi preservado com tanta fidelidade através dos séculos.
Os testemunhos de historiadores e escritores antigos também confirmam a consistência do texto bíblico ao longo do tempo. Josefo, historiador judeu do primeiro século, cita extensamente o Antigo Testamento em suas obras, e essas citações correspondem ao texto que possuímos hoje. Os pais da igreja primitiva, escrevendo entre os séculos segundo e quinto, citaram o Novo Testamento tão frequentemente em seus sermões, comentários e cartas que seria possível reconstruir quase todo o Novo Testamento apenas a partir dessas citações patrísticas. Quando comparamos essas citações antigas com nossos manuscritos, encontramos correspondência substancial, provando que o texto não foi significativamente alterado após os primeiros séculos.
A crítica textual, disciplina acadêmica que estuda manuscritos antigos para estabelecer o texto original, fornece garantia adicional. Estudiosos que dedicam suas vidas a comparar manuscritos desenvolveram métodos sofisticados para identificar e corrigir erros de transcrição. Quando encontram variações entre manuscritos, aplicam princípios estabelecidos para determinar qual leitura é mais provável que seja original. Por exemplo, a leitura mais difícil geralmente é preferida, pois escribas tendiam a simplificar passagens difíceis, não complicá-las. A leitura mais curta frequentemente é preferida, pois escribas às vezes adicionavam explicações mas raramente removiam texto.
Através desses métodos rigorosos, críticos textuais podem reconstruir o texto original com confiança extraordinária. O resultado é que as edições críticas modernas do texto hebraico e grego, como Biblia Hebraica Stuttgartensia para o Antigo Testamento e Novum Testamentum Graece para o Novo Testamento, representam com precisão notável o que os autores originais escreveram. As traduções modernas da Bíblia em português e outras línguas são baseadas nesses textos críticos estabelecidos através de análise meticulosa de todos os manuscritos disponíveis.
Finalmente, a promessa divina de preservação garante a confiabilidade da Palavra. Isaías 40:8 declara: “Seca-se a erva, e cai a sua flor, mas a palavra do nosso Deus permanece eternamente.” Jesus afirmou em Mateus 24:35: “Passará o céu e a terra, porém as minhas palavras não passarão.” Primeira Pedro 1:24-25 cita Isaías aplicando-o ao evangelho: “Pois toda carne é como a erva, e toda a sua glória, como a flor da erva; seca-se a erva, e cai a flor; palavra do Senhor, porém, permanece eternamente. Ora, esta é a palavra que vos foi evangelizada.”
Deus inspirou as Escrituras e prometeu preservá-las. Isso não significa preservação mágica que elimina a necessidade de cuidado humano no processo de cópia e transmissão, mas que Deus superintendeu providencialmente o processo de transmissão textual ao longo dos séculos. O fato de possuirmos milhares de manuscritos que atestam substancialmente o mesmo texto, apesar de terem sido copiados por diferentes pessoas em diferentes lugares durante diferentes períodos, é evidência dessa preservação divina em ação.
