Quantos livros tem a bíblia por Cânon?

Eis uma pergunta comum parece simples e possui múltiplas respostas e vai depender de qual tradição cristã se origina a pergunta. Para a Bíblia protestante a resposta é 66 livros. Já pela Bíblia católica romana é 73 livros. A Bíblia ortodoxa pode conter entre 76 e 81 livros, dependendo da tradição ortodoxa específica (grega, russa, etíope, etc.). E a Bíblia da Igreja Ortodoxa Etíope contém até 81 livros, o cânon mais amplo de todas as tradições cristãs.

Como este site segue a linha da Bíblia no cânon protestante, consideramos 66 livros divididos em:

  • 39 livros no Antigo Testamento (desde Gênesis até Malaquias)
  • 27 livros no Novo Testamento (desde Mateus até Apocalipse)

Esta variação não indica que existam múltiplas Bíblias diferentes ou que cristãos discordem sobre textos fundamentais. Todos os grupos cristãos concordam completamente sobre os 66 livros do cânon protestante. As diferenças referem-se especificamente aos livros deuterocanônicos (chamados “apócrifos” por protestantes) – escritos adicionais cuja autoridade canônica é disputada.

A questão do cânon bíblico não é meramente numérica mas teológica e histórica. Envolve perguntas sobre inspiração divina, autoridade escriturística, processo de reconhecimento canônico pela igreja primitiva, e critérios para determinar quais livros pertencem legitimamente às Escrituras Sagradas. Compreender esta questão requer examinar a história do cânon, os critérios de canonicidade, e as razões pelas quais diferentes tradições chegaram a conclusões diferentes.

O Cânon Protestante: 66 Livros

A Bíblia protestante contém 66 livros divididos em Antigo Testamento (39 livros) e Novo Testamento (27 livros). Esta é a Bíblia usada por luteranos, reformados, presbiterianos, batistas, metodistas, pentecostais, adventistas, e a vasta maioria das denominações protestantes e evangélicas.

Antigo Testamento – 39 Livros

  • Pentateuco (5 livros)
    Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio
  • Livros Históricos (12 livros)
    Josué, Juízes, Rute, 1 Samuel, 2 Samuel, 1 Reis, 2 Reis, 1 Crônicas, 2 Crônicas, Esdras, Neemias, Ester
  • Livros Poéticos (5 livros)
    Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cantares de Salomão
  • Profetas Maiores (5 livros)
    Isaías, Jeremias, Lamentações, Ezequiel, Daniel
  • Profetas Menores (12 livros)
    Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias
  • Novo Testamento – 27 Livros
  • Evangelhos (4 livros)
    Mateus, Marcos, Lucas, João
  • História da Igreja Primitiva (1 livro)
    Atos dos Apóstolos
  • Epístolas Paulinas (13 livros)
    Romanos, 1 Coríntios, 2 Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, 1 Tessalonicenses, 2 Tessalonicenses, 1 Timóteo, 2 Timóteo, Tito, Filemom
  • Epístola aos Hebreus (1 livro)
    Hebreus
  • Epístolas Gerais (7 livros)
    Tiago, 1 Pedro, 2 Pedro, 1 João, 2 João, 3 João, Judas
  • Profecia (1 livro)
    Apocalipse

Este cânon de 66 livros corresponde exatamente ao cânon judaico palestino do primeiro século, conhecido como Tanakh, embora organizado diferentemente. Os judeus dividem suas Escrituras em Torah (Lei), Nevi’im (Profetas) e Ketuvim (Escritos), totalizando 24 livros conforme a contagem hebraica, mas contendo exatamente o mesmo material que os 39 livros do Antigo Testamento protestante. A diferença numérica resulta apenas de como os livros são agrupados (por exemplo, os 12 profetas menores contam como um livro na tradição judaica, Samuel, Reis e Crônicas não são divididos em 1 e 2, etc.).

O Cânon Católico Romano: 73 Livros

A Bíblia católica romana contém os mesmos 66 livros do cânon protestante mais sete livros adicionais no Antigo Testamento, chamados “deuterocanônicos” pelos católicos: Tobias, Judite, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico (também chamado Sirácida ou Ben Sirá), Baruque (incluindo a Carta de Jeremias), 1 Macabeus, e 2 Macabeus. Além disso, há adições aos livros de Ester e Daniel que não aparecem nas versões protestantes.

Os Livros Deuterocanônicos

O termo “deuterocanônico” significa “segundo cânon” ou “canonizado posteriormente,” refletindo o fato de que estes livros foram aceitos como canônicos mais tardiamente e com mais controvérsia que os livros protocanônicos. Protestantes geralmente os chamam “apócrifos,” termo que significa “ocultos” ou “espúrios.”

Tobias: Narrativa sobre Tobias e seu filho Tobias (mesmo nome), que viaja acompanhado pelo anjo Rafael disfarçado. Contém ensinos sobre oração, esmola, casamento, e cuidado aos pais. Escrito provavelmente no segundo século antes de Cristo.

Judite: História de Judite, viúva judia que seduz e decapita o general assírio Holofernes, salvando seu povo. Obra claramente ficcional com propósito didático, escrita provavelmente no segundo século antes de Cristo.

Sabedoria de Salomão: Livro sapiencial atribuído tradicionalmente a Salomão mas escrito realmente em grego no primeiro século antes de Cristo, provavelmente em Alexandria. Desenvolve temas de sabedoria, justiça, imortalidade da alma, e recompensas futuras.

Eclesiástico (Sirácida): Extenso livro sapiencial escrito por Jesus ben Sirá aproximadamente em 180 antes de Cristo em hebraico, posteriormente traduzido ao grego por seu neto. Contém conselhos práticos sobre sabedoria, ética, família, amizade, e piedade.

Baruque: Atribuído a Baruque, escriba de Jeremias, mas escrito provavelmente no segundo ou primeiro século antes de Cristo. Contém orações, confissões, e encorajamento aos exilados. A Carta de Jeremias, às vezes contada separadamente, aparece como capítulo 6 de Baruque.

1 Macabeus: Relato histórico relativamente confiável da revolta dos Macabeus contra Antíoco IV Epifânio (175-134 antes de Cristo), purificação do templo (origem da festa de Hanukkah), e primeiros anos da dinastia hasmoneana. Escrito originalmente em hebraico aproximadamente em 100 antes de Cristo.

2 Macabeus: Não é continuação de 1 Macabeus mas relato paralelo cobrindo período mais curto (175-161 antes de Cristo) com foco mais teológico e menos histórico. Contém ensinos sobre oração pelos mortos, ressurreição, intercessão dos santos, e martírio. Escrito em grego aproximadamente no mesmo período que 1 Macabeus.

Adições a Ester: Seis passagens adicionadas ao livro de Ester na versão grega (Septuaginta), incluindo orações de Mardoqueu e Ester, decreto de Amã, e outros detalhes. Estas adições introduzem menções explícitas de Deus, ausentes no texto hebraico de Ester.

Adições a Daniel: Três seções adicionais – a Oração de Azarias e o Cântico dos Três Jovens (inserido em Daniel 3), a história de Susana, e Bel e o Dragão. Estas histórias existem apenas em grego e desenvolvem temas de fidelidade a Deus e sabedoria de Daniel.

O Cânon Ortodoxo: 76-81 Livros

As igrejas ortodoxas orientais geralmente incluem todos os deuterocanônicos católicos mais alguns livros adicionais, embora exista variação entre diferentes tradições ortodoxas nacionais.

Livros geralmente incluídos além dos deuterocanônicos católicos:

1 Esdras (chamado 3 Esdras em algumas tradições): Versão alternativa de material encontrado em Esdras, Neemias e 2 Crônicas, com algumas adições incluindo a famosa história dos três guardas que debatem o que é mais forte (vinho, rei ou mulheres/verdade).

Oração de Manassés: Breve oração penitencial atribuída ao rei Manassés de Judá, mencionada em 2 Crônicas 33:18-19 mas não registrada no texto bíblico hebraico.

Salmo 151: Salmo adicional atribuído a Davi, descrevendo sua escolha como rei e vitória sobre Golias. Encontrado na Septuaginta e nos Manuscritos do Mar Morto.

3 Macabeus: Apesar do nome, não trata dos Macabeus mas narra perseguição de judeus alexandrinos sob Ptolomeu IV Filopátor (221-203 antes de Cristo) e libertação miraculosa. Escrito provavelmente no primeiro século antes de Cristo.

4 Macabeus: Discurso filosófico sobre supremacia da razão devota sobre as paixões, usando mártires macabeus como exemplos. Fortemente influenciado por filosofia estoica. Incluído em alguns cânones ortodoxos como apêndice.

A Igreja Ortodoxa Etíope possui o cânon mais amplo, incluindo adicionalmente livros como Enoque, Jubileus, e outros escritos não encontrados em nenhuma outra Bíblia cristã canônica.

A História do Cânon do Antigo Testamento

A questão dos deuterocanônicos remonta a diferenças entre comunidades judaicas nos séculos antes de Cristo. Existiam essencialmente dois cânones judaicos em circulação:

O Cânon Palestino (Hebraico)

Este era o cânon das comunidades judaicas na Palestina, escrito em hebraico (com algumas porções em aramaico). Corresponde exatamente aos 39 livros do Antigo Testamento protestante. Este cânon provavelmente cristalizou-se entre o quinto e segundo séculos antes de Cristo, embora discussões sobre alguns livros (especialmente Ester, Cantares, e Eclesiastes) continuaram até o Concílio de Jâmnia aproximadamente em 90 depois de Cristo.

Os judeus palestinos aplicavam critérios rigorosos para canonicidade: o livro deveria ter sido escrito em hebraico (ou aramaico), por profeta reconhecido, antes do fim da profecia (geralmente considerado ter terminado com Malaquias aproximadamente em 450 antes de Cristo). Livros escritos após este período, mesmo que edificantes e úteis, não eram considerados inspirados da mesma maneira.

O Cânon Alexandrino (Septuaginta)

A Septuaginta (LXX) era tradução grega do Antigo Testamento produzida em Alexandria, Egito, começando aproximadamente em 250 antes de Cristo. Comunidades judaicas da diáspora, que falavam grego mais fluentemente que hebraico, usavam esta versão. A Septuaginta incluía os livros do cânon palestino mas também continha os livros deuterocanônicos e outros.

Entretanto, evidência histórica sugere que mesmo comunidades judaicas alexandrinas não consideravam necessariamente todos estes livros adicionais como tendo a mesma autoridade que a Torah e os Profetas. Filo de Alexandria, filósofo judeu do primeiro século que conhecia e usava a Septuaginta extensivamente, cita quase exclusivamente dos livros protocanônicos, raramente dos deuterocanônicos.

A Escolha da Igreja Primitiva

Os apóstolos e autores do Novo Testamento, sendo judeus do primeiro século, naturalmente conheciam e usavam as Escrituras hebraicas. A questão é: qual cânon eles reconheciam como autoritativo?

Jesus e os apóstolos citam o Antigo Testamento centenas de vezes no Novo Testamento. A vasta maioria destas citações vem dos livros protocanônicos. Não há citação direta inequívoca de nenhum livro deuterocanônico no Novo Testamento como “Escritura” ou com fórmulas introdutórias típicas de citações escriturísticas (“está escrito,” “diz a Escritura,” etc.).

Isso não significa que deuterocanônicos não eram conhecidos ou valorizados. Há possíveis alusões e ecos de linguagem destes livros no Novo Testamento. Por exemplo, Hebreus 11:35 possivelmente alude ao martírio em 2 Macabeus 7. Judas 14-15 cita explicitamente 1 Enoque (não canônico em nenhuma tradição cristã exceto a etíope), demonstrando que autores do Novo Testamento podiam citar literatura judaica não-canônica quando útil.

A igreja primitiva, especialmente após espalhar-se para o mundo greco-romano, naturalmente gravitou em direção à Septuaginta como sua Bíblia do Antigo Testamento. Isto significava que deuterocanônicos circulavam junto com livros protocanônicos nas Bíblias cristãs desde cedo.

Porém, Pais da Igreja mostravam consciência da distinção. Melito de Sardes (circa 170 depois de Cristo) viajou à Palestina para verificar quais livros pertenciam ao cânon hebraico. Orígenes (185-254) distinguia entre livros no cânon hebraico e livros adicionais úteis para leitura mas não para estabelecer doutrina. Atanásio, Cirilo de Jerusalém, e especialmente Jerônimo (tradutor da Vulgata Latina) defendiam primazia do cânon hebraico.

Jerônimo (347-420), que viveu em Belém e estudou hebraico com rabinos, traduziu o Antigo Testamento para o latim diretamente do hebraico (Hebraica veritas) ao invés da Septuaginta. Embora incluísse traduções dos deuterocanônicos em sua Vulgata por pressão eclesiástica, Jerônimo consistentemente argumentava que estes livros eram úteis para edificação mas não estabeleciam doutrina, prefaciando-os com advertências sobre seu status secundário.

Agostinho de Hipona (354-430), por outro lado, defendia inclusão dos deuterocanônicos como plenamente canônicos. O Concílio de Hipona (393) e os Concílios de Cartago (397, 419) listaram os deuterocanônicos como canônicos, largamente devido à influência de Agostinho.

Durante a Idade Média, a igreja ocidental geralmente aceitava os deuterocanônicos, embora consciência de sua distinção nunca desaparecesse completamente. Estudiosos medievais conheciam as reservas de Jerônimo, e teólogos como Nicolau de Lira e Cardeal Cajetan (contemporâneo de Lutero) questionavam status canônico dos deuterocanônicos.

A Reforma e o Cânon

A Reforma Protestante do século XVI trouxe a questão do cânon ao primeiro plano. Martinho Lutero, ao traduzir a Bíblia para o alemão, seguiu Jerônimo ao enfatizar o cânon hebraico. Lutero incluiu os deuterocanônicos em sua Bíblia de 1534 mas os colocou em seção separada entre o Antigo e Novo Testamentos, intitulada “Apócrifos: Livros que não são iguais às Sagradas Escrituras mas são úteis e bons para ler.”

Outros reformadores tomaram posições similares. Confissões protestantes subsequentes – Confissão de Fé de Westminster (1646), os Trinta e Nove Artigos da Igreja da Inglaterra (1563), Confissão Belga (1561) – todas afirmavam o cânon de 66 livros, embora algumas reconhecessem valor dos apócrifos para leitura.

Em resposta, o Concílio de Trento (1545-1563) definiu dogmaticamente o cânon católico romano, declarando os deuterocanônicos como plenamente canônicos e pronunciando anátema sobre quem não os aceitasse. Esta foi primeira vez que a Igreja Católica definiu o cânon de maneira infalível e universal.

A decisão de Trento foi influenciada parcialmente por considerações doutrinárias. Protestantes citavam ausência de certas doutrinas católicas no cânon hebraico. Por exemplo, 2 Macabeus 12:43-45 era texto principal usado para defender oração pelos mortos e purgatório. Ao canonizar os deuterocanônicos, Trento fortalecia base escriturística para estas doutrinas.

Critérios de Canonicidade

Diferentes tradições aplicaram diferentes critérios ao determinar quais livros pertencem às Escrituras:

Critérios Protestantes

1. Autoria Profética/Apostólica: O livro foi escrito por profeta reconhecido (Antigo Testamento) ou apóstolo/associado apostólico (Novo Testamento)?

2. Antigüidade: O livro foi escrito durante o período em que Deus estava revelando ativamente Sua palavra (antes aproximadamente 450 antes de Cristo para Antigo Testamento, primeiro século depois de Cristo para Novo Testamento)?

3. Reconhecimento pela Comunidade de Fé: O livro foi reconhecido e usado pela comunidade judaica (Antigo Testamento) ou igreja primitiva (Novo Testamento) como autoritativo?

4. Ortodoxia Doutrinária: O livro está livre de erros doutrinários e consistente com outros livros canônicos?

5. Poder Espiritual: O livro demonstra qualidade espiritual e poder transformador característicos de obra divina?

Aplicando estes critérios, reformadores concluíram que deuterocanônicos falhavam especialmente nos três primeiros. Foram escritos durante período quando profecia havia cessado (entre Malaquias e João Batista), não eram aceitos no cânon judaico palestino que Jesus e os apóstolos reconheciam, e alguns continham erros históricos e ensinamentos questionáveis.

Critérios Católicos e Ortodoxos

Tradições católica e ortodoxa enfatizam mais fortemente o papel da igreja em determinar o cânon. Argumentam que a igreja, guiada pelo Espírito Santo, tem autoridade para reconhecer e declarar quais livros são inspirados. Se a igreja universal (ou maioria dela) reconheceu e usou estes livros, isso valida sua canonicidade.

Também enfatizam testemunho da Septuaginta e Pais da Igreja que aceitavam cânon mais amplo, e argumentam que Novo Testamento demonstra familiaridade e aprovação dos deuterocanônicos através de alusões e linguagem semelhante.

Problemas nos Livros Deuterocanônicos

Protestantes apontam várias questões problemáticas nos deuterocanônicos que levantam dúvidas sobre inspiração divina:

Erros Históricos e Geográficos: Tobias 1:15 afirma que Senaqueribe era filho de Salmanasar, quando historicamente ele era filho de Sargão II. Judite contém múltiplos anacronismos históricos impossíveis de reconciliar com história conhecida.

Ensinamentos Questionáveis: Tobias 12:9 declara: “Esmola livra da morte e purifica todo pecado” – ensinamento que parece contradizer salvação pela graça através da fé. Eclesiástico 3:3 afirma: “Quem honra seu pai expia seus pecados” – novamente sugerindo salvação por obras.

Práticas Mágicas: Tobias 6:5-8 ensina uso de órgãos de peixe para expulsar demônios e curar cegueira, práticas que parecem supersticiosas e mágicas.

Suicídio Aprovado: 2 Macabeus 14:41-46 narra suicídio de Razias em termos aprovadores, chamando-o de nobre.

Oração pelos Mortos: 2 Macabeus 12:43-45 descreve oração e sacrifício pelos mortos, base principal para doutrina católica do purgatório, mas conceito ausente no restante das Escrituras.

Defensores católicos respondem que alguns destes problemas resultam de má interpretação ou leitura excessivamente literal de textos que usam gêneros literários diferentes, e que livros protocanônicos também contêm passagens difíceis que requerem interpretação cuidadosa.

O Novo Testamento: Consenso Universal

Notavelmente, todas as tradições cristãs – católica, ortodoxa, protestante – concordam completamente sobre o cânon do Novo Testamento. Os 27 livros foram reconhecidos pela igreja primitiva através de processo gradual que cristalizou-se no quarto século.

Atanásio de Alexandria listou os 27 livros em sua Carta Pascal de 367 depois de Cristo. Os Concílios de Hipona (393) e Cartago (397) afirmaram esta lista. Embora algumas igrejas orientais tivessem questões menores sobre Apocalipse, 2 Pedro, 2-3 João, e Judas, eventualmente toda a cristandade reconheceu estes 27 livros como únicos escritos apostólicos inspirados.

Conclusão: Autoridade e Suficiência das Escrituras

A questão do cânon não é meramente histórica ou acadêmica mas profundamente prática e espiritual. Afeta como entendemos autoridade da Bíblia, suficiência das Escrituras para fé e prática, e base para estabelecer doutrina.

Protestantes, seguindo princípio de sola Scriptura (somente a Escritura), insistem que apenas livros indubitavelmente inspirados devem formar base doutrinária. Preferem errar pelo lado da cautela, aceitando apenas livros com credenciais inquestionáveis. Os 66 livros do cânon protestante representam núcleo sobre qual virtualmente todos os cristãos dos primeiros séculos concordavam.

Católicos e ortodoxos, valorizando tradição da igreja junto com a Escritura, aceitam autoridade da igreja para definir cânon mais amplo. Argumentam que mesma igreja que preservou, transmitiu e reconheceu os 66 livros protocanônicos também reconheceu os deuterocanônicos, e que negar autoridade da igreja neste ponto é arbitrário.

Entretanto, é crucial notar que todas as doutrinas cristãs essenciais – Trindade, divindade de Cristo, expiação substitutiva, ressurreição, salvação pela graça, segunda vinda – estão firmemente estabelecidas nos 66 livros do cânon protestante. Os deuterocanônicos não contêm revelações necessárias para salvação ausentes nos livros protocanônicos.

Portanto, embora cristãos possam discordar sobre status canônico dos deuterocanônicos, esta discordância não precisa dividir a igreja sobre fundamentos essenciais da fé. Podemos dialogar respeitosamente sobre esta questão enquanto permanecemos unidos nos 66 livros que todos reconhecemos como indiscutivelmente Palavra de Deus.

“Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.” — 2 Timóteo 3:16-17

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