Por que existem diferentes versões da Bíblia?

A pergunta sobre diferentes versões bíblicas frequentemente gera confusão e até ansiedade entre cristãos sinceros que se perguntam qual Bíblia realmente contém a Palavra de Deus. A resposta requer distinguir entre manuscritos originais, famílias textuais, cânones e traduções.

Os manuscritos originais, chamados autógrafos, não existem mais. O que possuímos são cópias de cópias, transmitidas ao longo de séculos. Essas cópias preservadas pertencem a diferentes famílias textuais, grupos de manuscritos que compartilham características comuns sugerindo origem comum. As principais famílias textuais do Novo Testamento são a alexandrina, preservada no clima seco do Egito e geralmente considerada mais antiga e confiável, a ocidental, refletindo leituras de manuscritos em Roma e norte da África, e a bizantina, predominante em Constantinopla e base do Textus Receptus usado na Reforma.

A questão do cânon, quais livros pertencem à Bíblia, também gera variação. A Bíblia protestante contém sessenta e seis livros, trinta e nove no Antigo Testamento e vinte e sete no Novo. A Bíblia católica inclui sete livros adicionais no Antigo Testamento, chamados deuterocanônicos ou apócrifos: Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruque, Primeiro e Segundo Macabeus, além de adições a Ester e Daniel.

Os reformadores protestantes rejeitaram esses livros apócrifos porque não faziam parte do cânon hebraico reconhecido pelos judeus, não foram citados por Jesus ou pelos apóstolos no Novo Testamento, contêm ensinos que contradizem o restante das Escrituras como orações pelos mortos e salvação por obras, e não reivindicam inspiração profética. Jerônimo, tradutor da Vulgata latina no século quarto, já distinguia esses livros como úteis para edificação mas não autoritativos para doutrina.

As traduções variam conforme a filosofia de tradução adotada. Traduções de equivalência formal, como Almeida Revista e Corrigida e Almeida Revista e Atualizada, buscam traduzir palavra por palavra tão literalmente quanto possível, preservando a estrutura gramatical do original mesmo quando isso resulta em português menos natural. Traduções de equivalência dinâmica, como Nova Versão Internacional e Nova Tradução na Linguagem de Hoje, priorizam comunicar o significado em português natural, mesmo que isso requeira reestruturar frases ou usar palavras diferentes das originais. Paráfrases, como A Mensagem, recontam o texto em linguagem contemporânea extremamente livre.

Nenhuma tradução é perfeita porque toda tradução envolve interpretação. Palavras raramente têm correspondência exata entre línguas. O contexto cultural, os jogos de palavras, as nuances de tempo verbal, tudo isso se perde ou muda na tradução. Por isso estudiosos sérios consultam múltiplas traduções e, quando possível, os textos originais em hebraico e grego.

A distinção mais importante não é entre versões bíblicas, mas entre interpretações bíblicas. Pessoas sinceras usando a mesma tradução chegam a conclusões diferentes porque trazem pressupostos diferentes à leitura. A questão não é qual Bíblia você usa, mas se você está disposto a deixar a Bíblia interpretar a Bíblia, permitindo que textos claros iluminem textos obscuros e que o conjunto das Escrituras guie a compreensão de passagens individuais.