Como os índios serão salvos?

A pergunta sobre a salvação dos indígenas, e por extensão de todos os povos que nunca tiveram acesso ao evangelho, tem intrigado teólogos e cristãos sinceros através dos séculos. É questão profundamente importante que toca tanto a justiça de Deus quanto Sua misericórdia, e merece resposta cuidadosa fundamentada nas Escrituras em vez de especulação emocional ou pressupostos filosóficos.

Primeiro, devemos estabelecer firmemente que a salvação vem unicamente através de Jesus Cristo. Atos 4:12 declara inequivocamente: “E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos.” João 14:6 registra Jesus dizendo: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.” Primeira Timóteo 2:5 afirma: “Porquanto há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem.” Não há salvação através de outras religiões, filosofias humanas, boas obras ou sinceridade religiosa em sistemas não cristãos. Cristo é o único caminho.

Porém, isso não significa necessariamente que todos que nunca ouviram o nome de Jesus estão automaticamente condenados. Precisamos distinguir cuidadosamente entre o fundamento objetivo da salvação, que é sempre e somente Cristo, e o conhecimento subjetivo que diferentes pessoas têm sobre esse fundamento. A salvação foi conquistada por Cristo na cruz e somente através de Seu sacrifício. Mas a questão é: como essa salvação é aplicada a pessoas em diferentes circunstâncias de conhecimento?

As Escrituras revelam que Deus Se manifesta a todos os seres humanos de duas formas básicas: através da revelação geral na natureza e consciência, e através da revelação especial nas Escrituras e em Cristo. Romanos 1:19-20 explica: “Porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis.” A criação testifica do Criador, revelando Seu poder eterno e divindade de forma que todos os seres humanos, em todas as culturas e épocas, têm conhecimento básico de que existe Deus.

Romanos 2:14-15 adiciona outra dimensão: “Quando, pois, os gentios, que não têm lei, procedem, por natureza, de conformidade com a lei, não tendo lei, servem eles de lei para si mesmos. Estes mostram a norma da lei gravada no seu coração, testemunhando-lhes também a consciência e os seus pensamentos, mutuamente acusando-se ou defendendo-se.” Mesmo sem a lei escrita de Moisés, os gentios tinham lei moral escrita em seus corações através da consciência, tornando-os responsáveis moralmente diante de Deus.

Isso estabelece que ninguém está completamente sem conhecimento de Deus. Todo ser humano, em toda cultura, tem acesso à revelação geral que torna Deus conhecido em algum grau. A questão então é: essa revelação geral é suficiente para salvação? A resposta bíblica parece ser: suficiente para condenação mas não necessariamente suficiente para salvação plena, embora Deus possa operar salvíficamente através dela de maneiras que não compreendemos completamente.

Romanos 1:21-23 continua explicando que a humanidade, embora conhecendo a Deus através da revelação geral, não O glorificou como Deus nem Lhe deu graças, mas tornaram-se nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato, e trocaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis. Isso descreve precisamente o que aconteceu em muitas culturas indígenas e pagãs: em vez de adorar o Criador revelado na natureza, criaram ídolos e adoraram a criação.

Porém, não podemos assumir que todos em todas as culturas sem acesso ao evangelho rejeitaram completamente a luz que tinham. Há exemplos bíblicos de pessoas que responderam positivamente à revelação geral disponível a elas e foram aceitas por Deus. Jó, que viveu provavelmente antes de Abraão e certamente antes de Moisés, não tinha acesso à revelação especial da lei ou dos profetas, mas Deus o declarou “homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal” em Jó 1:8. Jó oferecia sacrifícios a Deus baseando-se aparentemente em conhecimento transmitido desde a criação, e Deus o aceitou.

Melquisedeque, sacerdote do Deus Altíssimo em Gênesis 14:18-20, não era israelita mas cananeu que de alguma forma preservou adoração ao Deus verdadeiro. Abraão reconheceu sua legitimidade e lhe pagou dízimos. Hebreus 7 o apresenta como tipo de Cristo. Raabe, prostituta cananeia em Jericó, demonstrou fé no Deus de Israel conforme Josué 2:8-13 e foi salva, sendo incluída na genealogia de Cristo em Mateus 1:5 e na galeria da fé em Hebreus 11:31. Rute, moabita, abraçou o Deus de Israel através de sua sogra Noemi, dizendo em Rute 1:16: “O teu Deus é o meu Deus,” e também entrou na linhagem messiânica.

O centurião romano Cornélio em Atos 10 é exemplo particularmente relevante. Antes de ouvir o evangelho de Pedro, ele é descrito em Atos 10:2 como “piedoso e temente a Deus com toda a sua casa, e que fazia muitas esmolas ao povo e, de contínuo, orava a Deus.” O anjo lhe disse em Atos 10:4: “As tuas orações e as tuas esmolas subiram para memória diante de Deus.” Cornélio estava respondendo fielmente à luz que tinha como gentio temente a Deus antes de receber a revelação plena em Cristo. Deus honrou sua fé sincera enviando Pedro para lhe explicar o evangelho completamente.

Esses exemplos sugerem princípio importante: Deus aceita aqueles que, dentro da luz que possuem, O buscam sinceramente, vivem segundo a consciência que Ele lhes deu, e demonstram fé genuína mesmo que incompleta. Hebreus 11:6 declara: “De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam.” Não especifica que é necessário conhecer todos os detalhes teológicos sobre a natureza de Deus ou a obra de Cristo, mas que é necessário crer que Deus existe e que Ele recompensa aqueles que O buscam.

Isso não significa que todas as religiões são igualmente válidas ou que sinceridade em qualquer sistema de crenças salva automaticamente. A idolatria, sacrifícios humanos, imoralidade sexual ritualística e outras práticas encontradas em muitas culturas pagãs são abominações diante de Deus e evidências de rejeição da revelação geral. Mas pode haver indivíduos dentro dessas culturas que, como Jó, resistem à corrupção circundante, adoram o Criador da melhor forma que conhecem baseando-se na luz da natureza e consciência, e vivem em harmonia com a lei moral escrita em seus corações.

A questão então é: como essas pessoas são salvas se nunca ouviram sobre Jesus? A resposta teológica é que são salvas pelos méritos de Cristo, mesmo sem conhecê-Lo especificamente pelo nome. Os santos do Antigo Testamento foram salvos pelos méritos de Cristo embora Ele ainda não tivesse vindo. Abraão não conhecia o nome de Jesus, não sabia detalhes sobre a crucificação ou ressurreição, mas creu em Deus e isso lhe foi imputado para justiça conforme Gênesis 15:6 e Romanos 4:3. Ele olhava para frente pela fé para o Redentor prometido sem compreender completamente como a redenção seria realizada.

Similarmente, é possível que pessoas em culturas sem acesso ao evangelho, respondendo fielmente à revelação geral que possuem, sejam salvas pelos méritos de Cristo mesmo sem conhecê-Lo especificamente. Eles olham para cima, reconhecendo através da natureza que existe Criador poderoso, respondem à consciência reconhecendo padrão moral que os julga e do qual fracassam, anseiam por reconciliação com o Divino que sentem ter ofendido, e confiam na misericórdia de Deus mesmo sem entender como essa misericórdia foi provida através da cruz.

Cristo morreu por todos os seres humanos conforme João 3:16 e Primeira João 2:2 que declara: “E ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro.” Seu sacrifício é suficiente para todos embora eficaz apenas para aqueles que creem. A fé pode existir em formas rudimentares baseadas em revelação limitada.

Porém, devemos ser extremamente cuidadosos para não usar esse ensino como desculpa para negligenciar a Grande Comissão. Jesus ordenou em Mateus 28:19-20: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado.” Marcos 16:15 registra: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura.” Romanos 10:13-15 pergunta retoricamente: “Porque: Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados?”

A possibilidade de que Deus possa salvar alguns através de revelação geral não elimina nossa responsabilidade urgente de levar o evangelho a todos os povos. A revelação especial em Cristo é incomparavelmente superior à revelação geral na natureza. Conhecer Jesus pelo nome, compreender Sua obra redentora, ter as Escrituras, participar da comunidade da fé, tudo isso oferece vantagens tremendas para crescimento espiritual, santificação e certeza de salvação que a revelação geral sozinha não pode proporcionar.

Além disso, estatisticamente sabemos que a vasta maioria das pessoas em culturas pagãs não respondem fielmente nem mesmo à revelação geral que possuem. Romanos 1-3 deixa claro que a tendência universal da humanidade caída é suprimir a verdade sobre Deus, trocar o Criador pela criatura, e mergulhar cada vez mais profundamente em pecado e idolatria. Portanto, embora possa haver alguns como Jó ou Melquisedeque ou Cornélio que respondem positivamente à luz limitada que têm, esses são exceção, não regra. A necessidade de evangelização é urgente e real.

Quanto aos indígenas especificamente no contexto brasileiro, sabemos historicamente que muitas tribos tinham tradições que sugerem conhecimento degradado do Deus verdadeiro transmitido desde tempos antigos mas corrompido através de gerações. Algumas tribos tinham conceitos de Criador supremo acima dos espíritos da natureza que adoravam. Algumas tinham senso moral de certo e errado que refletia a lei escrita no coração. Algumas tinham anseios espirituais por algo além do mundo material.

Missionários que levaram o evangelho a tribos indígenas frequentemente relataram que certos indivíduos responderam ao evangelho com reconhecimento, como se estivessem ouvindo verdade que seus corações já ansiavam mas não conseguiam articular completamente. Isso sugere que o Espírito Santo estava preparando corações através da revelação geral, criando fome espiritual que seria satisfeita quando a revelação especial finalmente chegasse.

Também devemos reconhecer honestamente que nem todos os que se diziam cristãos trataram indígenas de forma que honrasse a Cristo. Muita opressão, exploração e violência foram perpetradas contra povos indígenas por europeus nominalmente cristãos. Isso não desculpa os pecados genuínos das culturas indígenas, mas nos lembra que o julgamento de Deus será perfeitamente justo, considerando não apenas o que as pessoas fizeram com a luz que tinham mas também como foram tratadas por aqueles que professavam conhecer mais.

Lucas 12:47-48 ensina: “Aquele servo, porém, que conheceu a vontade de seu senhor e não se aprontou, nem fez segundo a sua vontade, será punido com muitos açoites. Aquele, porém, que não soube a vontade do seu senhor e fez coisas dignas de reprovação levará poucos açoites. Mas àquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e àquele a quem muito se confia, muito mais lhe pedirão.” Isso sugere graus de responsabilidade baseados em graus de conhecimento. Alguém criado em cultura cristã com acesso completo às Escrituras e negligenciando essa luz será julgado mais severamente que alguém em selva amazônica que viveu e morreu sem jamais ouvir o nome de Jesus mas respondeu fielmente à luz da natureza e consciência.

O juízo final revelará que Deus foi perfeitamente justo com todos. Gênesis 18:25 pergunta retoricamente: “Não faria justiça o Juiz de toda a terra?” Romanos 2:6-16 descreve julgamento onde Deus “retribuirá a cada um segundo o seu procedimento” considerando não apenas ações externas mas também o coração, julgando “por meio de Cristo Jesus, os segredos dos homens.” Aqueles que pecaram sem lei perecerão sem lei, e aqueles que pecaram sob a lei serão julgados pela lei. Deus não condenará ninguém por rejeitar Cristo se nunca tiveram oportunidade de conhecê-Lo, mas os julgará por como responderam à luz que tiveram.

Apocalipse 7:9-10 apresenta visão gloriosa: “Depois destas coisas, vi, e eis grande multidão que ninguém podia enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé diante do trono e diante do Cordeiro, vestidos de vestiduras brancas, com palmas nas mãos; e clamavam em grande voz, dizendo: Ao nosso Deus, que se assenta no trono, e ao Cordeiro, pertence a salvação.” Entre essa multidão incontável de todos os povos e línguas certamente haverá representantes de tribos indígenas, tanto aqueles que ouviram o evangelho e creram quanto possivelmente aqueles que, como os santos do Antigo Testamento, foram salvos pelos méritos de Cristo embora não O conhecessem especificamente pelo nome.

A resposta equilibrada à pergunta “como os índios serão salvos?” é: da mesma forma que todos são salvos, unicamente através dos méritos de Jesus Cristo. Aqueles que ouviram o evangelho e creram serão salvos através de fé explícita em Cristo. Aqueles que nunca ouviram mas responderam fielmente à revelação geral que possuíam, vivendo segundo a luz da natureza e consciência, confiando na misericórdia do Criador que reconheceram através da criação, podem ser salvos pelos méritos de Cristo aplicados a eles mesmo sem conhecimento específico dEle, assim como os santos do Antigo Testamento foram salvos olhando para frente para o Messias prometido sem compreender completamente como a salvação seria realizada.

Mas isso não diminui em nada nossa responsabilidade urgente de levar o evangelho a todos os povos, incluindo tribos indígenas ainda não alcançadas. A revelação especial é incomparavelmente superior à revelação geral, oferecendo certeza de salvação, conhecimento claro da vontade de Deus, poder do Espírito Santo para santificação e comunhão da igreja que a revelação geral sozinha não pode proporcionar. Além disso, sabemos que a vasta maioria da humanidade não responde adequadamente nem mesmo à revelação geral, tornando a evangelização não apenas desejável mas absolutamente essencial.

Que essa compreensão nos motive a obedecer a Grande Comissão com urgência renovada, levando o evangelho até os confins da terra, confiando que o Juiz de toda a terra fará justiça perfeita com todos, mas determinados a que ninguém deixe de ouvir sobre Jesus por nossa negligência ou desobediência.